Depois de passar por Campos Novos (11), Curitibanos (18) e Caçador (25) arrebatando 1790 estudantes de 70 turmas de 26 escolas estaduais e municipais, além do público espontâneo que pôde acompanhar as sessões abertas e gratuitas, à noite, sempre no Cine Lúmine, podemos garantir que a 2ª Mostra de Cinema Chica Pelega foi um sucesso. O Projeto é uma realização do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Lei Aldir Blanc e conta com a produção da VMS Produções e da Pupilo TV de Joaçaba.
Foram oferecidas duas sessões-escola de manhã e duas de tarde para turmas de 8o, 9o e 3o anos de escolas públicas dos municípios e Gerências Regionais de Educação (GERED) por onde a Mostra passou. Desta forma, pôde-se unir a experiência do audiovisual com as necessidades educacionais de ensino a respeito da Guerra do Contestado, conteúdo este relacionado aos filmes.
Sob a curadoria do cineasta joaçabense Rudolfo Auffinger, foram exibidos os curta-metragens Irani, do Rogério Sganzerla (1983); Olhar Contestado, de Fabianne Balvedi e Fernando Severo (2015) e Larfiagem (2017), de Gabi Bresola. O primeiro curta-metragem é um registro em Super 8, câmera na mão, de um desfile cívico em homenagem à Guerra do Contestado, onde o cineasta filma de perto os cavalos e o discurso do folclorista Vicente Telles a respeito daquele conflito que teve sua batalha inicial naquele município. Já o filme de Fabianne Balvedi resgata as fotos do fotógrafo Claro Gustavo Jansson, o profissional contratado pela madeireira Lumber, para retratar a Guerra. Ela faz animação usando software livre e desta forma muda a percepção a respeito do caboclo. E finalmente, Larfiagem é o nome do linguajar criado em Herval d´Oeste, quarenta anos depois da guerra, por meninos que trabalhavam na estação ferroviária e quem conta a história são seus criadores, agora com 60, 70 anos.
Além destes, à noite, foi exibido o longa-metragem Terra Cabocla (2015), de Márcia Paraíso e Ralf Tambke, na sessão aberta ao público. O documentário é gravado em Fraiburgo e Lebon Régis, e mostra a fé cabocla das joaninas e joaninos, os devotos a São João Maria. Eles vivem os resquícios do Contestado, lembram o massacre e as almas que se perderam na guerra; as lutas que ainda estão de pé: pela terra, pela dignidade, pela vida.
Durante os debates, ao mesmo tempo que se externava uma gratidão por se trazer à tona um assunto tão importante e latente, que é o perceber-se como caboclos e caboclas, que é entender o seu jeito popular de falar, a história para além da historiografia oficial, é pensar quem faz este resgate e como ele é proposto, um grupo de artistas, que trabalha na periferia de Caçador, falam sobre a sua luta para ganhar visibilidade. Eles relatam a facilidade de brancos descendentes de europeus fazerem este debate em detrimento de pretos, pobres e caboclos, que ainda têm para eles ocultos estes espaços. Mesmo com todas as possibilidades de recursos postos à disposição para tanto. Foi uma conversa rica em elementos e um debate para ser estendido para outros espaços de atuação.
Já houve convites de outros municípios para que uma Terceira edição da Mostra de Cinema Chica Pelega percorra outros caminhos dentro da região onde ocorreu a Guerra do Contestado. Interessados podem entrar em contato com a equipe de produção por meio deste link
Mais de 100 anos se passaram e a Guerra do Contestado (1912-1916) está sendo revisitada, debatida e questionada por seus descendentes por meio da relação cinema e educação. A 2a Mostra de Cinema Chica Pelega levou 632 estudantes de 12 escolas – oito estaduais, três municipais e uma particular – ao Cine Lúmine, em Curitibanos, nos dias 18 e 19 de abril. Durante as cinco sessões diurnas, todas acompanhadas de debate, os estudantes puderam assistir a três curtas-metragens: Olhar Contestado (2012), de Fabianne Balvedi e Fernando Severo; Irani (1983), de Rogério Sganzerla e Larfiagem (2017), de Gabi Bresola. Na sessão noturna, teve também a exibição do longa-metragem Terra Cabocla (2015), de Márcia Paraíso e Ralf Tambke. Produção da Pupilo TV e da VMS Produções. Realização: Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Lei Aldir Blanc.
Durante o bate-papo, o professor Jilson Carlos Souza, da Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (APAFEC), de Fraiburgo, comentou com os estudantes sobre a origem do nome Curitibanos – Homens que vem de Curitiba. Estes homens, segundo ele, faziam o tropeirismo de gado, ou seja, conduziam os animais do Rio Grande do Sul até o centro econômico do Brasil, que naquela época era Sorocaba, no interior de São Paulo. A palavra Curitiba tem origem tupi-guarani – Cidade das Araucárias. E assim, os homens que viajavam até Curitiba, fundaram uma cidade no meio do caminho, antes de chegar na cidade das Araucárias. Por ser este lugar de passagem, Curitibanos é o espaço também que deu origem a outros conflitos agrários desta época.
A partir desta introdução, o educador popular contou o que ele considera um dos episódios mais interessantes da Guerra do Contestado e que fica localizado há 800 metros de onde acontecia a 2a Mostra de Cinema Chica Pelega – Contestado em Foco. “Cansados de apenas se defenderem dos ataques, os caboclos e caboclas resolvem também atacar. Eles incendiaram o cartório e a Igreja. No entanto, eles não buscavam vingança, não queriam o sangue dos seus matadores, eles queriam justiça. Ninguém morreu. Os prédios estavam vazios, Apenas foram queimados e eliminados os registros, os papéis, os documentos que davam direito de posse às terras – o que dava direito a matar”, disse ele ainda acrescentando:
Para nós caboclos e caboclas, a nossa relação com a terra não é de exploração, é de pertencimento. A terra é nossa mãe, ela é o que nós chamamos de pachamama, a grande mãe. E pros brancos que aqui chegaram e passaram a ter o título de terra, e por isso eles podiam expulsar os caboclos de suas terras, a relação é de exploração da terra. Isso denota que a nossa história não começou há 60, 70, 100 anos atrás, com os imigrantes. Ela começou há pelo menos 10 mil anos, com as nações indígenas. Não foi o homem branco que nos ensinou a comer aipim, pinhão, foi o indígena. E é dessa história que nós estamos falando nesses filmes.
Por meio da parceria entre a 2 Mostra de Cinema Chica Pelega Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) campus de Curitibanos, foi possível a participação do professor Paulo Pinheiro Machado, autor de Lideranças do Contestado (2004), Guerra Santa Revisitada (2008), Rebeldes do Contestado (2016) e coordenador do grupo de pesquisa sobre o Contestado. Para ele:
A resistência contra a expropriação de ferrovias existia em todo o Brasil e em toda a América Latina. Essa concessão que dava terra em cada lado da linha de ferro não era só no Contestado. Estradas em outros lugares do Brasil impactavam sobre comunidades da mesma forma, mas não aconteceu a Guerra do Contestado em todo lugar. Aqui houve a união de vários elementos culturais subjetivos que viabilizaram esta forma de resistência e de organização da população. É isso que a gente precisa entender. A luta contra o coronelismo, contra a ferrovia que causava todo aquele impacto ambiental e social, são elementos muito além das questões regionais. São elementos nacionais. A discussão sobre o coronelismo não era uma discussão só do meio oeste de Santa Catarina, era um problema do Brasil inteiro. E ainda é.
O professor Paulo Pinheiro insiste que o contexto agrário no Contestado é de resistência à expropriação.
Eles já eram posseiros. Até os grandes fazendeiros não tinham título de propriedade. O contexto hoje é de reconquista do território perdido. A luta pela Reforma Agrária hoje se comunica com o Contestado, assim como se comunica com as missões Jesuíticas. Há vários descendentes de imigrantes nos redutos.
Foto: Luana Callai
Mas, afinal, quem é o povo caboclo?
Os estudantes ficaram curiosos ao ver os filmes, ao ouvir as histórias relatadas pelo professor Jilson Souza, a respeito da participação de Curitibanos na Guerra do Contestado, dos ajuntamentos, então chamados de Cidades Santas. Mas quem são então estes caboclos
O caboclo e a cabocla somos todos nós: o preto, o índio e o branco pobre Esse povo misturado, que resistiu e nos trouxe até aqui. Nós só estamos vendo esses filmes e dialogando sobre o Contestado porque nós somos descendentes, nós somos continuadores da história do Contestado. Hoje em outras trincheiras. Naquele momento, eles tiveram que enfrentar canhão, avião, metralhadora alemã. Hoje, a nossa tarefa é enfrentar a tentativa de esquecimento, de apagamento da história, de quem nós somos e o que somos. E ser caboclo é um grupo social formado por pelo menos três etnias: indígena, negra e branca.
Foto: Luana Callai
A guerra podia ter sido evitada
O professor Paulo Pinheiro Machado destacou uma fala do professor Rogério, dentro do filme Terra Cabocla (2012), quando ele afirma que a guerra contra o próprio povo não é uma fatalidade, é uma decisão política. Ela podia ter sido evitada e a matança não teria acontecido:
Possivelmente Taquarussu hoje fosse uma espécie de Juazeiro do Norte, vendendo fitinhas de João Maria, tendo uma romaria anual… Juazeiro do Norte teve mediações políticas que impediram o ataque. Padre Cícero era um coronel, ele estava na política oligárquica, influenciava na política nacional e regional. Aqui no Contestado eles não tinham nenhum tutor, nenhum coronel que fizesse esse tipo de mediação. E aquela concentração de pobres foi vista como uma ameaça à ordem estabelecida. Foram sistematicamente atacados e a Guerra se estabeleceu.
Ao final de cada sessão, de cada participação, de cada nova escola, de cada novo município da região do Contestado por onde a 2 Mostra Chica Pelega tem passado percebe-se que a história é latente. As reflexões sobre a guerra são também sobre a vida e a reconquista da terra. Esta edição se encerra na próxima parada, em Caçador, nos dias 25 e 26 de abril, no Cine Lúmine. Até lá.
A estreia da 2a Mostra de Cinema Chica Pelega aconteceu na última segunda-feira, dia 11 de abril em Campos Novos. Foram exibidos três curtas-metragens em quatro sessões-escola e uma sessão noturna aberta ao público, com um curta e um longa-metragem. Todas elas com entrada gratuita. O projeto é uma realização do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Lei Aldir Blanc, com a produção da VMS Produções e da Pupilo TV de Joaçaba. Nas próximas semanas, a Mostra passará ainda pelos municípios de Curitibanos (18) e Caçador (25).
De manhã,354 estudantes das redes públicas municipal – Prof. Nair da Silva Gris (CAIC); Sta Julia Billiart; Novos Campos – e estadual – Paulo Blasi e Prof. Antonia Correa Mendes, Henrique Rupp e Gasparino – de Campos Novos assistiram aos curtas-metragens Olhar Contestado(2015), de Fabianne Balvedi e Fernando Severo; Irani (1983), de Rogério Sganzerla e Larfiagem (2017) de Gabi Bresola, em duas sessões (8h30 e 10h).
À tarde, as Escola Estaduais Henrique Rupp e Gasparino, o CAIC a Santa Julia Billiart mandaram outras turmas. Além delas, ainda compareceram a Escola de Educação Básica Professora Virginia Paulina da Silva Gonçalves, de Monte Carlo. Na soma, foram 228 alunos, divididos em duas sessões – às 14h e às 15h30, para assistirem e debaterem os filmes apresentados na 2a Mostra de Cinema Chica Pelega, no Cine Lúmine.
Fechando a programação, às 19h30, a última sessão, aberta ao público, contando com a presença de 135 estudantes do Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) de Campos Novos e Monte Carlo, além de outros interessados em conhecer os filmes que retratavam os temas referentes à Guerra do Contestado e à cultura cabocla.
Entre os interessados, estava o ex-senador da República, Dirceu Carneiro, e a esposa, Terezinha, moradores da região. Eles chegaram cedo e acompanharam a exibição de Kiki, o Ritual de Resistência Kaingang (2012), de Ilka Goldsmith e Cassiano Vitorino, da Margot Filmes de Chapecó, e de Terra Cabocla (2015) de Marcia Paraiso e Ralf Tambke, da Plural Filmes.
Ao final de cada sessão – manhã, tarde e noite – houve debate sobre os temas levantados pelos filmes. Durante o dia, com a participação do professor Jilson Souza, caboclo, educador e comunicador popular, integrante do Fórum Regional em Defesa da Civilização e da Cultura Cabocla do Contestado e da Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (APAFEC). Para o debate da noite, contamos com a participação também de João Maria Chaves dos Santos, assentado no MST em Campos Novos, pesquisador oral das lutas pela terra, descendente de caboclos.
Os estudantes não se sentiram intimidados em perguntar. Queriam saber sobre a formação dos povos originários, a construção e o porque não se mantém atualmente ativa a estrada ferro, interessaram-se muito pela “larfia”, a língua criada em Herval do Oeste pelos meninos que trabalhavam na Estação Ferroviária, retratados no filme de Gabi Bresola.
Muitos deles nunca tinham ido ao cinema, segundo o relato das professoras. Não nos constrangemos com esta pergunta. Mas estava em seus olhos. Brilhavam. Suas almas pareciam sair do corpo e ir em direção à tela, em direção ao sonho.
Fotos: Luana Callai Fotógrafa
OS FILMES
TERRA CABOCLA (Marcia Paraiso e Ralf Tambke, 2015, 82m) Um povo simples, de crenças e rituais tradicionais habita a região do Planalto Catarinense. Símbolos de uma forte resistência cultural, os caboclos enfrentaram uma guerra de extermínio há 100 anos atrás, quando sofreram severos ataques de grandes fazendeiros, do Estado e das oligarquias que estavam de olho nas terras que o grupo ocupava. Apesar da Guerra do Contestado ter quase dizimado a cultura local, o povo caboclo conseguiu se reerguer e mantê-la viva até os dias atuais. Llink para download do cartaz do filme.
KIKI, O RITUAL DE RESISTÊNCIA KAINGANG (Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, 2014, 34m) Kiki é o ritual mais importante da etnia indígena. Foi realizado em 2011 na Aldeia Condá Chapecó/SC). De forma cronológica, são mostrados os preparativos na mata e na aldeia. A realização do ritual foi uma tentativa de revitalizar e fortalecer o dualismo Kaingang. O filme mostra, também, como a língua kaingang ainda hoje representa um importante signo dessa cultura, demonstrando que os indígenas mantêm sua identidade apesar da violência do contato com outras etnias. Link para download do cartaz do filme
IRANI (Rogério Sganzerla, 1983 – 8 m) O cineasta, com a câmera na mão, se mistura aos personagens da festa que marca o aniversário da Guerra do Contestado, na cidade de Irani. Uma câmera que se aproxima de frente aos cavalos, que imprime movimentos circulares, estabelece uma gramática que emerge, a partir da encenação que a população da cidade constrói. O filme é a sua maneira de olhar para o seu passado a fim de constituir uma história que lhe represente.
OLHAR CONTESTADO (Fabianne Balvedi e Fernando Severo, 2012, 15m) A animação de câmeras virtuais sobre registros fotográficos, ilustrações e desenhos rotoscopiados sobre documentários da época fornecem os elementos visuais necessários para a reconstituição minuciosa dos locais, personagens e eventos do conflito. As principais fotografias utilizadas são de Claro Jansson, fotógrafo contratado pela Madeireira Lumber, que registrou passagens fundamentais daquela que ficou conhecida como “Guerra Santa do Sul”. “O Contestado ainda é uma guerra cheia de interrogações, cheia de dúvidas, do que realmente aconteceu. Além do importante caráter histórico/documental, o filme se destaca pelo fato de ser aberto (filme e fontes disponibilizados livremente) e ter sido produzido com ferramentas livres.)
LARFIAGEM (Gbi Bresola, 2017, 18m) Engraxates, carregadores de malas e outras crianças de 7 a 15 anos de idade conviviam com viajantes da estação ferroviária de Herval d’Oeste (SC), nos anos de 1950. Para sobreviver, comprar gibis e ir ao cinema, driblar fiscais, policiais e até os próprios pais, inventaram uma língua própria. Hoje, décadas depois,a Larfiagem aparece como memória de seus últimos falantes, agora septuagenários, mas que ainda conhecem, ensinam e decifram os segredos de seus substantivos e pronomes.
Olhar Contestado é um documentário que aborda um episódio acontecido há quase 15 anos após o término da Guerra de Canudos. Com proporções e significados semelhantes, a Guerra do Contestado conflagrou-se numa região do sul do Brasil cuja posse era disputada pelos estados do Paraná e Santa Catarina. Numa extensão de terras equivalente ao Estado de Alagoas (25.000 km2), durante mais de quatro anos, entre 1912 e 1916, uma população estimada em vinte mil sertanejos enfrentou as forças do governo e do coronelismo predominante na região, num conflito que chegou a envolver 80% do Exército Brasileiro. Ao término do conflito, Paraná e Santa Catarina assinaram um acordo estabelecendo definitivamente suas divisas. E foi no apogeu de tais lutas que pela primeira vez na história do Brasil as massas camponesas manifestaram a clara consciência da necessidade de garantir seu “direito de terras.
Fabianne Balvedi aponta o seu “olhar contestado” dirigindo um documentário de 15 minutos, que faz parte da 2ª Mostra Chica Pelega de Cinema. Acompanhe esse diálogo e curiosidades sobre o que esse filme apresenta e como ocorreu sua produção, técnicas utilizadas e mais informações:
Quando você teve a ideia de falar sobre o Contestado?
Apesar de ser da região, como a maioria de nós, eu só comecei a ouvir falar mais sobre a Guerra do Contestado depois de ter saído da escola. Eu fui convidada pelo Fernando Severo, que é de Caçador, para participar de um projeto de filme que ele pretendia ao tentar uma Lei de Incentivo. Eu topei. Fui a produtora e acabei sendo também a diretora porque ele achou justo que a direção ficasse comigo. O roteiro e montagem foram dele. Mas a ideia de fazer um filme sobre o Contestado foi do Fernando. Juntamente com toda a equipe que está na ficha técnica, fizemos o Olhar Contestado.
Como você teve acesso às fotos do Claro Jansson?
Eu tive acesso a essas fotos por meio do Paulo Moretti, que é neto dele. Quem me apresentou à ele foi o professor Nilson Cesar Fraga. Eu cheguei ao professor Nilson pela pesquisa da Luciane Stocco e do Thiago Benites, que foram os dois pesquisadores do nosso filme.
O que significa o filme ter sido editado com o uso de software livre?
Significa que ele é um filme que conseguiu ser feito com ferramentas livres. Isso mostra que é possível trabalhar profissionalmente com software livre. É como um atestado de funcionalidade da ferramenta. Mostra que ela não deixa a desejar para nenhuma outra ferramenta no mercado. Existe um preconceito de que software livre não funciona. Inclusive o sistema operacional Android, por onde nos comunicamos, é um software livre. Além de usar software livre, o próprio filme é livre.
Há uma noção de realidade ou ficção que pode ser manipulada?
Na verdade, a tese do professor Rafael, que também está nas entrevistas, no elenco do filme, é que as fotos foram posadas, para passar algo que não estava acontecendo. Que a guerra era justa com o lado perdedor e que o lado perdedor estava sendo bem tratado, quando não foi bem tratado, teve muita gente que foi morta e depois não sabiam o que fazer com tantos prisioneiros. Era muita gente para alimentar. E nestes moldes é que se diz que aconteceu este genocídio, ao final da guerra. Na época também, você não conseguia fazer uma foto instantânea. A pessoa precisava parar na frente da foto. Então, tem vários motivos para as fotos terem sido feitas daquela forma como foi. Mas, simbolicamente, dá pra ver que os caboclos estavam em uma posição inferior e o Exército atrás, em pé. Não sei nem se foi consciente. Mas você consegue perceber isso nas fotos, pelas posturas.
O que significa para você ter o seu filme incluído em uma Mostra de Filmes que se propõe a apresentar o Contestado à estudantes da rede pública de ensino na região onde o conflito ocorreu?
Pra mim, é a consolidação do objetivo do filme. É o início de uma trajetória que eu quero que perdure o quanto puder. Não sei quanto tempo existe de vida para um filme. Não sei se a gente pode dizer que algum filme morreu em algum momento, não sei o que significa a vida de um filme. Mas eu acho que dá pra dizer que o filme entrou nos trilhos da trajetória que deveria seguir. Importante ele ficar conhecido para ser utilizado nas escolas. O meu objetivo, pelo menos, era esse. Era que a história pudesse ficar conhecida por essa lente do olhar contestado.
Para conhecer melhor a o trabalho de Fabianne Balvedi você pode conferir a na minibio aqui mesmo no site da 2a Mostra de Cinema Chica Pelega. E para assistir ao trailer deste e dos demais filmes desta mostra, e ter acesso às fichas técnicas e outras informações, acesse a página Filmes, aqui mesmo.
Quanto mais temos acesso a histórias e memórias a respeito da Guerra – ou Conflito – do Contestado, parece que mais nos aproximamos da nossa verdadeira identidade. A partir das pesquisas, do cancioneiro popular, das experiências em sala de aula, descobrimos que há muita gente que, assim como nós, que estamos preparando a 2a Mostra Chica Pelega, têm realmente interesse em que isso se esclareça.
Há locais que podem ser visitados, para quem quem sabe concebermos um registro material sobre o que aconteceu. São vales, cachoeiras, estradas, campos. Tem muita memória guardada em museus, sítios arqueológicos, monumentos, documentos, fotos, até mesmo ferramentas utilizadas pelos agricultores da época, armamentos, e o trem, claro. A velha malha ferroviária não é mais a mesma, restaram poucos trechos onde ainda se pode fazer passeios – não mais viagens. Nós destacamos parte deste acervo que está disponível e muitas vezes passa batido, acaba fazendo parte do cenário das cidades e a gente sequer se dá conta que isso já foi parte de um conflito tão gigante. Se você conhece outros lugares, outras pessoas, tem outras memórias, deixe esta dica nos comentários! Vamos ampliar este conhecimento, reconstruir juntos esta história 🙂
Cemitério do Contestado, em IraniMuseu do Contestado, em IraniOnde está enterrado São João Maria
O Combate do Irani foi a primeira batalha do Exército Nacional, forças de segurança de Paraná e Santa Catarina, jagunços, vaqueanos, contra os caboclos. Naquele lugar onde se deu o conflito, hoje preserva-se o Sítio Histórico e Arqueológico do Contestado. Lá está também a Sepultura do Monge José Maria, morto em combate; o Cemitério do Contestado, o Museu Histórico Monge José Maria, além do Monumento do Contestado. Quem guarda esta memória é a Fundação Cultural Memória Viva do Contestado da Região do Irani. Há também atrações turísticas como trilhas ecológicas, o Cerro Agudo, a Cachoeira do Contestado, com uma queda d’água de 41 metros. Para visitar o Sítio e suas atrações, é preciso fazer agendamento prévio, pelo telefone (49) 3432-3200.
Localização: BR-153, km 64 – Banhado Grande, Irani – SC Google Mapas
Caçador é outro município que deve ser visitado pelos interessados no que aconteceu por essas terras que foram disputadas / contestadas pelos estados de Santa Catarina e Paraná entre os anos de 1912 e 1916. Lá se preservou a Estação Ferroviária daquele tempo, hoje o Museu da Ferrovia, onde se pode conhecer uma Maria Fumaça, com dois vagões, além do Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado, com o maior acervo no Estado sobre este assunto. Documentos, fotografias e mapas da época, Materiais bélicos e utensílios indígenas – Xokleng, Kaingang. O Museu é aberto ao público, com entrada gratuita. De terça a sexta, ele funciona das 8h30 às 12h e das 13h30 às 18h. Aos sábados e domingos das 13h às 18h. Fica na Rua Getúlio Vargas, 100 – Centro. E o telefone para contato é o (49) 3567-1582
CAÇADOR
Localização R. Getúlio Vargas, 100 – Centro, Caçador – SC Google Mapas
O primeiro grupamento de messiânicos, “fanáticos”, como os chama a História oficial, foi o Reduto Taquarussu do Bonsucesso, que ficava na antiga Curitibanos. Hoje estas terras estão dentro dos limites do município de Fraiburgo. Nós preferimos nos referir a estes homens e mulheres chamando-os de caboclos e caboclas. Eram trabalhadores e trabalhadoras do campo ameaçados por jagunços que seriam expulsos das terras onde moravam, plantavam e colhiam sua subsistência porque não tinham um papel que lhes desse a propriedade de onde se encontravam. Esse foi o principal motivo de sua rebelião.
No Museu do Jagunço da Cidade Santa de Taquaruçu, que fica na Linha Taquaruçu de Cima, você encontra utensílios, cartas, fotos, que são registros da memória da nossa região, do nosso povo, da construção deste estado. Ele está aberto à visitação, de forma gratuita, de terça a sexta, das 9h às 12h, e das 13h30 às 18h. Aos sábados, das 9h às 12h e das 13h às 17h e aos domingos das 14h às 17h. Contato pelo telefone (49) 3256-3000.
Localização Linha Taquaruçu de Cima, Taquaruçú, Fraiburgo – SC Google Mapas
A partir da Lei Nº 17.466, assinada pelo governador Raimundo Colombo, em 2012, Lebon Régis passou a ser reconhecida como a “Cidade Coração do Contestado”. Neste local haviam crematórios onde se ocultavam os restos mortais das vítimas da Guerra do Contestado. De acordo com relatos do geógrafo e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Nilson Fraga, os corpos de caboclos e militares foram queimados em fornos de barro, com fogo de grimpa de araucária e nó-de-pinho. As vítimas eram jogadas em buracos feitos no chão de terra com muros de taipa e de pedra de mais ou menos um metro. Em 2000, pelo menos doze fornos de extermínios foram registrados em propriedades privadas sem a devida conservação e manutenção. Isso na comunidade de Perdizes, no interior de Lebon Régis.
Crematório de Cadáveres das Perdizinhas
Serra da Boa Esperança – Lebon Régis
Localização: Estr. Lebon – Lebon Régis, SC Google Mapas
Naquele período, o local era conhecido também como Vale das Mortes. Hoje o resgate cultural acontece por meio da Festa cabocla, na Cachoeira, promovida pela Escola Municipal CMEB Nossa Senhora Aparecida, desde 2007. Neste evento, são expostos objetos caboclos, acontece também o Festival da Música Caipira (FEMUCA), tem também comidas típicas e Missa Cabocla.
Timbó Grande localizou o Marco Histórico do Contestado, erguendo uma placa, 100 anos depois (2015), em homenagem a Adeodato, líder caboclo, que morreu em combate no final da guerra.
Foto: Thyago Weingantner
Localização: Rodovia SC340, Estrada Vaca Branca, S/N – Linha VB1, Timbó Grande – SC Google Mapas
Neste artigo você vai saber mais sobre a disputa de território numa região entre o Paraná e Santa Catarina e que até hoje repercute seus efeitos.
Após a realização da I Jornada Cabocla Chica Pelega, ficamos com muitas “pulgas atrás da orelha”. Passou-se muito tempo desde que aprendemos, na escola, sobre a Guerra do Contestado e mesmo que tivéssemos uma vaga ideia de que conhecíamos muito pouco a este respeito, não tínhamos a noção do quanto isso nos faz falta para compreendermos outros aspectos acerca da região onde vivemos e a condição que ela se encontra ainda hoje.
Pensando nisso, conversamos com o educador popular Jilson Souza, integrante do Fórum Regional em Defesa da Civilização e Cultura Cabocla do Contestado, um dos organizadores daquele evento. Ele inicia a sua fala questionando o uso da palavra guerra:
“Primeiro o conceito de guerra: não foi uma guerra, foi um genocídio. Nós não podemos chamar de ‘Guerra do Contestado’. Nós devemos e precisamos chamar de Conflito do Contestado ou Movimento do Contestado.”
Jilson nos localiza no tempo em que tudo aconteceu. “Estamos falando do final da monarquia e início da república no Brasil. No sul, especialmente, acontecia um movimento conhecido como do colonato independente. Ou seja, após a libertação dos negros escravizados, parte dos imigrantes europeus que começavam a chegar nos estados do Sul, passaram a trabalhar nas grandes propriedades como arrendatários, sendo explorados pelo latifundiário. Estas primeiras levas de imigrantes europeus, no final de 1890, 1900 e 1910, acabaram produzindo uma política de branqueamento do interior de SC.”
DISPUTA PELA TERRA
Havia uma movimentação em torno de três monges: João Maria de Agostinho, João Maria de Jesus e José Maria. Na época, eram poucos os padres que circulavam pelo interior. José Maria ficou conhecido como Monge Guerreiro, pois ele se junta aos desplazados (termo em espanhol que denota aqueles que foram arrancados do seu lugar de origem), aqueles que foram tirados da terra pela Brazil Railway Company, que construía, à época, a Ferrovia São Paulo – Rio Grande do Sul, que cortava o interior de Santa Catarina.
Entre as empresas pertencentes à companhia estava a Lumber (na etimologia, lumber significa derrubada de árvores). As pessoas que seguiam o monge começaram, então, a formar o primeiro agrupamento de resistência, ou cidade santa, como seriam chamados, em Taquarussu do Bonsucesso. Este é o contexto político e social que vai dar origem ao Conflito do Contestado.
O motivo central para o conflito foi a disputa pela terra. Em troca da construção da Ferrovia, o governo brasileiro e o governo do estado de SC deram para a Brazil Railway e ao seu proprietário, Percival Farquhar, o direito de explorar o que ele quisesse numa margem de 15 km à direita e à esquerda da ferrovia. Percival construiu também Madeira-Mamoré, no Norte do país, (onde hoje fica o estado de Rondônia). Nessa margem de 30 km era permitido fazer tudo, inclusive matar.
Junto com a força dos coroné (expressão que Jilson usa para definir os donos das terras) da região – e eram várias famílias em Campos Novos e Curitibanos que detinham o poder político – eles forneceram vaqueanos, jagunços, neste contexto, sinônimos. Eles iam até os caboclos e caboclas e davam um ultimato: “ou vocês se mudam daqui ou nós vamos matar”. A grande maioria dos caboclos resolveram resistir e uma outra parte, também considerável, decidiu seguir José Maria no primeiro ajuntamento, na primeira cidade santa que é Taquarussu do Bonsucesso.
Jilson nos lembra que a relação com a terra que o caboclo e a cabocla mantinham não era a relação de posse, mas de pertença: “O umbigo deles está enterrado ali. A terra é pachamama, é a mãe. E o capital invasor que estava chegando, mais as primeiras levas de imigrantes… Eles têm a posse, têm um título, um papel que diz que a terra lhes pertence.”
TAQUARUSSU DO BONSUCESSO
A primeira batalha do Contestado acontece nos campos do Irani. Porém, o berço do conflito é o Taquarussu (naquela época pertencente a Curitibanos) porque é ali que surge o primeiro ajuntamento, a primeira cidade santa e isso começa a incomodar os coronés da região.
O coronel Albuquerque, por exemplo, estava desconfortável porque o ajuntamento se ergueu nas terras dele. Segundo alguns relatos, ele mandou chamar o monge José Maria para curar a sua filha. O monge não se negou a curar a moça, a partir dos seus conhecimentos. Para alguns, eis o motivo último para que os caboclos criassem o reduto santo no Irani.
Se a gente for lembrar essa figura do coronelismo como elemento da política brasileira, podemos observar que isso acontece no período entre a monarquia até 1930, com a chamada revolução de 1930 e a criação, em 1937, do Estado Novo. Os monarcas davam este título pelo voto de cabresto.
Os títulos de coronel e capitão eram dados aos homens que tinham muita terra e tinham, com isso, a possibilidade de terem suas milícias armadas. Por isso, pela força da posse da terra e pelas forças das armas eles recebiam este título antes da República.
Gualberto
INÍCIO DO CONFLITO
O Exército Brasileiro e a Polícia Militar do Paraná promoveram, no dia 22 de outubro de 1912, um ataque ao reduto santo do Irani, onde aconteceu a primeira batalha resultando em 21 pessoas mortas. Entre elas, o monge José Maria e o coronel João Gualberto, líder das tropas paranaenses.
Os restos mortais de José Maria continuam no Irani e os de João Gualberto estão em um suntuoso mausoléu, em Curitiba. Para a historiografia oficial, João Gualberto é um herói que combateu fanáticos e jagunços, que são as palavras pelas quais chamam o homem e a mulher do contestado.
De acordo com os relatos do professor Jilson, “as forças de segurança vão massacrar, promover genocídio aos caboclos em nome da propriedade privada. Os meios de comunicação da época reportaram que elas combatiam um grupo de fanáticos ignorantes e perigosos que lutavam pela monarquia cabocla. Não a velha monarquia, mas uma sociedade onde pudessem partilhar o pouco que tinham. Era esse sentimento de partilha que as forças de segurança vão tentar combater.
Eles combatem o modo de vida, o jeito de se organizar. Na visão deles era perigoso porque era baseado na solidariedade. Alguns autores chegam a falar que nos redutos santos se vivia o comunismo primitivo, ou um comunismo caboclo. Eles estavam combatendo um jeito diferente de viver, que ia contra a propriedade privada.”
Operários – Tarsila do Amaral
FORMAÇÃO DO POVO CABOCLO
As caboclas e os caboclos do contestado são formados por diversos grupos sociais e étnicos. A base desta formação são as seis nações indígenas que habitaram esse chão: araucanos, botocudos, kaigangs, xoklengs, guaranys e coroadas. Então essa é a parte que Jilson acredita ser a principal. A segunda parte são os negros que foram trazidos em 1642 por Juan de Salazar y Espinosa, um espanhol que depois fundou Assunción (Paraguai).
Esses negros mais tarde vão se organizar em quilombos. Se pensarmos o território do contestado até o Rio Canoas, em Lages vai ter quatro quilombos: o Canudinho, em Lages, a Invernada dos negros, entre Abdon Batista e Campos Novos; o Campo dos Poli, entre Fraiburgo e Monte Carlo, e o Rocio, em Palmas (PR). Isso é também parte do que vai formar o homem e a mulher do Contestado.
A terceira parte desta formação são os brancos – espanhóis, portugueses, e mais tarde os tropeiros. Alguns autores chegam a falar dos remanescentes da República Juliana, do conflito Farroupilha. Isso se passa no final da monarquia, início da República Velha entre 1889 e 1890.
São João Maria
PERSONAGENS
O principal personagem do conflito foi a própria Resistência Cabocla a todas as tentativas do exército brasileiro de massacrá-los. A construção dos vários redutos santos. O aparecimento de Chica Pelega e a liderança de Maria Rosa. Além destes, as lideranças caboclas, as de guerra e as religiosas.
Maria Rosa vai liderar em Caraguatá. Era liderança religiosa, uma menina que tinha visões do monge e que não se furtava de ir ao campo de Batalha. Chica Pelega vai se juntar ao Reduto Santo Taquarussu do Bonsucesso, depois da Batalha do Irani. Eles queriam o direito de viver na Terra que pertencia a eles e a elas de forma digna, queriam ter o direito de ter o que comer.
O CONTESTADO NÃO ACABOU
O Conflito do Contestado não acabou porque há dados econômicos que indicam isso. Fraiburgo tem, segundo dados de 2010 (IBGE), uma população de 34.530 pessoas, 36,8% pobres. Em Timbó Grande, são 7160 habitantes, 41,56% pobres. Em Calmon, 3387 pessoas, 43,47% de pobres. Lebon Régis, 11838 habitantes, 38,70% pobres.
Esses números se apresentam no estado com o terceiro maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Enquanto isso, Calmon, Matos Costa, Timbó Grande, Lebon Régis, Fraiburgo, apresentam IDH comparado aos municípios que mais sofrem com o flagelo da seca no nordeste brasileiro. Estes foram palco de batalhas e onde se instalaram redutos de resistência à antiga guerra (ou conflito, como Jilson prefere chamar).
Tem outro aspecto ainda que eu gosto sempre de refletir. A Guerra do Contestado não acabou, porque muitos dos remanescentes dos caboclos e caboclas, são mão de obra barata para desenvolver o capital dos descendentes dos coroné, que outrora oprimiram e mataram seus bisavós e tataravós.
O Reduto Santo de Santa Maria – o último reduto, onde aconteceu a última batalha – chegou a ter 5532 casas e 17 Igrejas, de acordo com dados oficiais do Exército. Porém, não sabemos como essa gente se organizava, em termos de comida, segurança, convivência ou quais eram as leis que regiam essa convivência.
De acordo com Jilson, os imigrantes – ou descendentes – querem contar a história da nossa região a partir da imigração e ele diz que não é o caso de esconder a história dos italianos, alemães, poloneses, austríacos, franceses e outras nacionalidades que aqui se instalaram. Ao contrário disso, ele pontua que seria mais justo que a história oficial assumisse que eles vieram para cá porque os ancestrais deles estavam sem saída no velho continente.
O professor conclui que quando não se preserva o patrimônio e a memória material e imaterial da civilização e da cultura Cabocla, é esse exemplo que querem apagar. Ele lamenta, dizendo que é isso que querem destruir, é isso que querem esconder. Que a nossa região foi palco de um dos principais conflitos sociais e luta pela terra que já houve.
“A partir de julho de 2019, a nossa região deixou de ser chamada Vale do Contestado e passou a se chamar Vale dos Imigrantes. Eu estou falando de uma das políticas públicas mais terríveis que é o branqueamento do interior catarinense.”, finaliza Jilson alertando para uma guerra que ainda não acabou.