Tag: APAFEC

2ª Mostra de Cinema Chica Pelega chega a Fraiburgo

segunda mostra de cinema chica pelega fraiburgo

No sábado, dia 13 de agosto de 2022, o Instituto Federal Catarinense (IFC) de Fraiburgo recebeu a Mostra de Cinema Chica Pelega. Foi um momento de encontro dos estudantes do Ensino Médio e da Escola de Jovens e Adultos (EJA) com a sua própria história, com as suas origens. A programação do evento trouxe produções que retratam o conflito do Contestado (1912-1916) que teve embates importantes na região de Fraiburgo.

Foram exibidos três curtas-metragens. O primeiro, Kiki, o Ritual da Resistência Kaingang (2014), da Margot Filmes, de Chapecó, que mostra a retomada do ritual indígena mais tradicional do território Condá, que não era feito há 10 anos. No filme é mostrado cada passo desta tradição, o que muitos sequer conheciam.

Na segunda produção, Olhar Contestado (2012), dirigida pela joaçabense Fabianne Balvedi e pelo caçadorense Fernando Severo, são feitas animações de câmeras virtuais sobre registros fotográficos de Claro Jansson –  fotógrafo contratado pela Madeireira Lumber – ilustrações e desenhos fotocopiados sobre documentários da época.

E, finalmente, Larfiagem (2017), da hervalense Gabi Bresola, que retoma parte do que é também a sua história, quando junta aqueles que foram os criadores da conhecida língua que era falada às margens da ferrovia. Nos anos 1950, um grupo de meninos, então com 8 a 15 anos que faziam bicos como engraxar sapatos ou carregar malas dos viajantes, inventaram um jeito de se comunicar para que pudessem fazer as suas tratativas de crianças levadas, ou “malandros”, como eles se reconheciam. São eles mesmos, com 60, 70 anos, que contam estas histórias.

Sabendo da importância de debater coletivamente o que assistimos, após as sessões, aconteceram conversas mediadas pelo caboclo, educador e comunicador popular Jilson Carlos Souza, integrante do Fórum Regional em Defesa da Civilização e da Cultura Cabocla do Contestado e da Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (APAFEC) de Fraiburgo.

Nosso muito obrigada a quem compareceu e colaborou com a construção da Mostra. Agradecemos especialmente o Prof. Rodrigo Cabral do IFC.

Continue nos acompanhando aqui no blog e compartilhe os conteúdos que se interessar com seus amigos.

Olhar Contestado: Entrevista com a diretora Fabianne Balvedi

mostra de cinema chica pelega olhar contestado fabianne balvedi

Olhar Contestado é um documentário que aborda um episódio acontecido há quase 15 anos após o término da Guerra de Canudos. Com proporções e significados semelhantes, a Guerra do Contestado conflagrou-se numa região do sul do Brasil cuja posse era disputada pelos estados do Paraná e Santa Catarina. Numa extensão de terras equivalente ao Estado de Alagoas (25.000 km2), durante mais de quatro anos, entre 1912 e 1916, uma população estimada em vinte mil sertanejos enfrentou as forças do governo e do coronelismo predominante na região, num conflito que chegou a envolver 80% do Exército Brasileiro. Ao término do conflito, Paraná e Santa Catarina assinaram um acordo estabelecendo definitivamente suas divisas. E foi no apogeu de tais lutas que pela primeira vez na história do Brasil as massas camponesas manifestaram a clara consciência da necessidade de garantir seu “direito de terras.

Fabianne Balvedi aponta o seu “olhar contestado” dirigindo um documentário de 15 minutos, que faz parte da  2ª Mostra Chica Pelega de Cinema. Acompanhe esse diálogo e curiosidades sobre o que esse filme apresenta e como ocorreu sua produção, técnicas utilizadas e mais informações:

7

Quando você teve a ideia de falar sobre o Contestado?

Apesar de ser da região, como a maioria de nós, eu só comecei a ouvir falar mais sobre a Guerra do Contestado depois de ter saído da escola. Eu fui convidada pelo Fernando Severo, que é de Caçador, para participar de um projeto de filme que ele pretendia ao tentar uma Lei de Incentivo. Eu topei. Fui a produtora e acabei sendo também a diretora porque ele achou justo que a direção ficasse comigo. O roteiro e montagem foram dele. Mas a ideia de fazer um filme sobre o Contestado foi do Fernando. Juntamente com toda a equipe que está na ficha técnica, fizemos o Olhar Contestado.

Como você teve acesso às fotos do Claro Jansson?

Eu tive acesso a essas fotos por meio do Paulo Moretti, que é neto dele. Quem me apresentou à ele foi o professor Nilson Cesar Fraga. Eu cheguei ao professor Nilson pela pesquisa da Luciane Stocco e do Thiago Benites, que foram os dois pesquisadores do nosso filme. 

3 1

O que significa o filme ter sido editado  com o uso de software livre?

Significa que ele é um filme que conseguiu ser feito com ferramentas livres. Isso mostra que é possível trabalhar profissionalmente com software livre. É como um atestado de funcionalidade da ferramenta. Mostra que ela não deixa a desejar para nenhuma outra ferramenta no mercado. Existe um preconceito de que software livre não funciona. Inclusive o sistema operacional Android, por onde nos comunicamos, é um software livre. Além de usar software livre, o próprio filme é livre. 

Há uma noção de realidade ou ficção que pode ser manipulada?

Na verdade, a tese do professor Rafael, que também está nas entrevistas, no elenco do filme,  é que as fotos foram posadas, para passar algo que não estava acontecendo. Que a guerra era justa com o lado perdedor e que o lado perdedor estava sendo bem tratado, quando não foi bem tratado, teve muita gente que foi morta e depois não sabiam o que fazer com  tantos prisioneiros. Era muita gente para alimentar. E nestes moldes é que se diz que aconteceu este genocídio, ao final da guerra. Na época também, você não conseguia fazer uma foto instantânea. A pessoa precisava parar na frente da foto. Então, tem vários motivos para as fotos terem sido feitas daquela forma como foi. Mas, simbolicamente, dá pra ver que os caboclos estavam em uma posição inferior e o Exército atrás, em pé. Não sei nem se foi consciente. Mas você consegue perceber isso nas fotos, pelas posturas.

8O que significa para você ter o seu filme incluído em uma Mostra de Filmes que se propõe a apresentar o Contestado à estudantes da rede pública de ensino na região onde o conflito ocorreu?

Pra mim, é a consolidação do objetivo do filme. É o início de uma trajetória que eu quero que perdure o quanto puder. Não sei quanto tempo existe de vida para um filme. Não sei se a gente pode dizer que algum filme morreu em algum momento, não sei o que significa a vida de um filme. Mas eu acho que dá pra dizer que o filme entrou nos trilhos da trajetória que deveria seguir. Importante ele ficar conhecido para ser utilizado nas escolas. O meu objetivo, pelo menos, era esse. Era que a história pudesse ficar conhecida por essa lente do olhar contestado.

Para conhecer melhor a o trabalho de Fabianne Balvedi você pode conferir a na minibio aqui mesmo no site da 2a Mostra de Cinema Chica Pelega. E para assistir ao trailer deste e dos demais filmes desta mostra, e ter acesso às fichas técnicas e outras informações, acesse a página Filmes, aqui mesmo.

Irani (1983) e a identidade que o cineasta Rogério Sganzerla buscava

irani 4

Irani foi o local onde ocorreu o primeiro combate, dando início a Guerra do Contestado, onde o Exército encontrou o povo caboclo, então já unido em comunidade, amparado pelas bênçãos do monge que depois foi consagrado São João Maria, que lhes preparava chás para curar as tantas dores e enfermidades. Por coincidência, o pai de Rogério Sganzerla foi um dos fundadores, construtores: “uma pessoa a qual as pessoas jamais esquecem”. Nas palavras do próprio cineasta, em entrevista à Adgar Bittencourt, no programa Olho Vivo na TV, no extinto Canal 21, de Joaçaba, sua terra natal, em dezembro de 1999. Rogério falava com muito amor sobre este projeto que envolvia o Irani. O curta-metragem era apenas uma parte. Ele parecia não abrir mão deste resgate. 

Eu me sinto lisonjeado e devo repetir que tenho a maior satisfação de ter encontrado, até na Sorbonne, em Paris, estudantes fazendo teses sobre o meu primeiro longa-metragem, O Bandido da Luz Vermelha (1968), e também em outros países. Mas na verdade, eu devo dizer que o filme que eu queria estrear, e que até hoje eu não pude fazer na sua longa-metragem, é o filme  sobre o Contestado, sobre a nossa terra, sobre o Irani.

6

Rogério Sganzerla foi crítico de cinema (Suplemento Literário – Estadão, Folha da Manhã, Folha da Tarde) e  obteve reconhecimento mundial no cinema depois como realizador. Sempre defendeu o cinema, a arte, a liberdade de criar. Mas, acima de tudo, amava o seu povo, tinha muito orgulho de ser “um cara do interior” e de guardar traços dessa herança. 

3

Nesta  mesma entrevista, dada à TV local da sua cidade natal, conta que passou muitos meses trabalhando neste projeto sobre a Guerra do Contestado, no Irani. Conversando com o Maestro Vicente Telles, a quem admirava. Não queria mostrar só canhões, mas pensava em um processo diferenciado.

Eu tinha conhecido, eu admiro muito o trabalho musical do maestro Vicente Telles. Ele se preocupa em manter os locais onde aconteceram os combates iniciais, no Irani, e este é um projeto que eu acalento desde 1961. Eu queria fazer isso na forma que fosse útil e agradável ao público. Eu queria contar uma história, é uma curva dramática, todos são heróis e ao mesmo tempo, há uma reflexão histórica e tem ligações com o Paraná.

11 1

E então Rogério afirma que este projeto ficou parado por falta de incentivo financeiro. Ele dizia que era para ser feito com investimento vindo de Santa Catarina e do Paraná. Era para ser algo que interessasse até mesmo aos poderes públicos destes lugares para esclarecer o que houve na região. As pessoas deveriam buscar estes esclarecimentos. Saber das origens, da identidade e contemplar esta história que foi feita principalmente de heróis. Não os militares, mas os que se doaram para proteger as suas famílias e buscar algo melhor para as crianças que ficaram esperando em casa as suas voltas. E em nome deles ele acalentou este projeto. 

Para mais informações a respeito do filme Irani (1983), de Rogério Sganzerla, e os outros filmes que estão na 2ª Mostra de Cinema Chica Pelega, entre na Sessão Filmes.

1ª Jornada Cabocla promoveu encontro de pesquisadores, ativistas e educadores do Contestado​

capa post2

Entre os dias 02 e 08 de fevereiro, o Fórum Regional em Defesa da Civilização e da Cultura Cabocla do Contestado proporcionou a 1ª Edição da Jornada Cabocla Chica Pelega. O encontro promoveu a reflexão acerca do Conflito do Contestado, onde hoje é a região do meio oeste catarinense – a partir da construção da estrada de ferro que liga o Rio Grande do Sul a São Paulo. O evento foi transmitido pelo Facebook e YouTube.

O objetivo da primeira edição foi rememorar os dois embates que aconteceram em Taquarussu do Bonsucesso – que antes pertencia a Curitibanos e hoje a Fraiburgo. A primeira batalha ocorreu no dia 29 de dezembro de 1913 e a segunda, mais conhecida como o Massacre do Taquarussu, deu-se no dia 08 de fevereiro de 1914, como narra o jornalista e pesquisador Paulo Ramos Derengoski (Railway do Contestado. Editora Insular, p.40 e 41):


“Na madrugada de 8 de fevereiro de 1914, Aleluia Pires deu ordem de fogo. Depois de alguns tiroteios esparsos com franco-atiradores, os legalistas conseguiram cercar as saídas do reduto de Taquarussu e assentaram metralhadoras nas elevações mais próximas. Durante quatro dias e quatro noites, milhares de granadas explosivas Schrapnell arrebentaram os casebres do acampamento caboclo: homens, mulheres e crianças são rasgados pelos estilhaços. Em meio ao fogaréu a ferro, numa gritaria medonha voam braços, pernas, panelas, armas, santinhos, potes, roupas, chapéus e lascas. A resistência sertaneja desfaleceu em meio aos destroços“.

 

No lançamento da Jornada, o professor Paulo Pinheiro Machado (PPGH – UFSC), uma das maiores referências nos estudos sobre a Guerra do Contestado, relatou como foi o confronto no Taquarussu, destacando os principais personagens que ali estiveram envolvidos. Ele fala a partir das pesquisas realizadas nos documentos oficiais do Exército Brasileiro, no Rio de Janeiro.

No segundo dia teve o lançamento da Rede de Educadores Caboclos e Caboclas, unindo professores que levam a cultura e a história do Contestado para a sala de aula. Participaram da conversa os professores Eduardo Nascimento, Nilson Cesar Fraga e Rogério Rosa, com a mediação do educador Jilson Carlos Souza.

 

 

Na sexta-feira (04/02), houve a apresentação do livro de cordel A batalha de Rio das Antas, escrito pelos estudantes do 8º ano da Rede Pública de Rio das Antas. Os professores Arthur Luiz Peixer (História), Anderson Ferreira (Língua Portuguesa) e Leonardo Guerreiro de Andrade (Artes) contaram como foi a concepção e a produção deste livro que trouxe, além dos textos, fotos dos estudantes recriando a ambientação da guerra.

Sábado foi o dia do pré-lançamento da 2ª Mostra Chica Pelega, que levará cinco filmes sobre o conflito do Contestado aos municípios de Caçador, Curitibanos e Campos Novos, em março e abril desse ano. Serão três sessões em cada local, sendo duas destinadas a estudantes de escolas públicas e outra aberta ao público. Sempre no Cine Lúmine, que é parceiro da VMS Produções e da Pupilo TV, promotores do evento.

O domingo foi marcado pela cantoria. O trovador de São Miguel do Oeste, professor de história e instrutor de violão popular, Pedro Pinheiro, cantou músicas que fazem referência aos cenários, histórias e personagens do Contestado.

Na segunda-feira, a conversa foi sobre o surgimento da Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (APAFEC) e a luta pela terra e preservação dos povos originários. 

O evento contou com a participação da jornalista Claudia Weinman, do professor Jilson Carlos Souza e de Juliana, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que conta sobre o fechamento da Escola Itinerante Estudando e Plantando, no Assentamento São José, em Campos Novos. A escola atende também estudantes do Pinhal Preto e a fazenda vizinha ao assentamento. Após o relato, Emerson Souza fala sobre a formação da APAFEC e a forma de atuação da associação.

A última noite da 1ª Jornada Cabocla Chica Pelega aconteceu na terça-feira (08), quando a professora Karoline Fin falou sobre o Segundo Massacre na Cidade Santa do Taquarussu do Bonsucesso e o assassinato de Chica Pelega.

A 1ª Jornada Chica Pelega foi possível com apoio de diversas entidades como a Escola de Educação Básica 30 de Outubro (Lebon Régis), Instituto Federal de Santa Catarina – IFSC (Campus Caçador), Associação Hayashi-há Vital de Karatê-dô (Fraiburgo), Pastoral da Juventude Rural – PJR/SC, Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (Fraiburgo), Grupo Renascença Cabocla (Fraiburgo), Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP/SC e Pupilo TV. O evento também contou com o apoio de pesquisadores/as, professores/as e ativistas do Contestado.

Quem foi Chica Pelega

Francisca Roberta, identificada como Chica Pelega, ajudava os feridos da guerra, fazia para eles os chás de ervas que os curavam. A prática foi ensinada pelo Monge João Maria, a quem seguia. Ela morava com os pais em Limeira (Joaçaba) e ficou conhecida por este nome porque, depois de perder o pai, o noivo e a propriedade, na Guerra do Contestado (1912-1916), continuou a combater ao lado dos caboclos, defendendo seu povo, sobrando-lhe de material apenas o pelego do cavalo que ela montava.

Assim, Chica Pelega é transformada através das narrativas populares em um ícone que representa um modelo de conduta e luta de grupos subalternos. A combatente, assassinada em 08 de fevereiro de 1914, no combate do Taquarussu (Fraiburgo), é a síntese da mulher cabocla sertaneja, conhecida como um ser humano comprometido com as causas de seu povo.


Guerra do Contestado

A Guerra do Contestado (1912-1916) aconteceu há 110 anos, sendo uma das maiores lutas de formação territorial da história da humanidade, exterminando mais de 20 mil combatentes, um genocídio dos povos indígena e caboclo por empresas multinacionais com auxílio do Exército, da Polícia Militar e jagunços dos três estados do Sul. 

Na prática, o resultado do conflito foi determinante para a formação do sertão do meio oeste catarinense – Região Vale do Contestado. A desocupação forçada da faixa de terras com 30 quilômetros de largura às margens da estrada de ferro pensada para ligar o estado de São Paulo ao Rio Grande do Sul, representou o massacre de um povo.


Primeira Jornada Chica Cabocla em números


5.529 visualizações no Facebook;

4.849 comentários, compartilhamento, curtidas e comentários no Facebook;

780 minutos ou 13 horas de material em vídeo e áudio sobre o Contestado;

10 vídeos disponíveis no Youtube

779 visualizações no Youtube;

410 seguidores na página da Primeira Jornada Cabocla Chica Pelega do Facebook;

91 inscritos no Youtube;

20 convidados/as entre pesquisadoras/es, professoras/es, ativistas;

07 atividades educativas, apresentação de livros, música e cinema.

Jornada Cabocla Chica Pelega – Contestado: 110 anos de lutas e resistência

capa post1

Jornada Cabocla Chica Pelega – Contestado: 110 anos de lutas e resistência

 

Quem viu Chica Pelega

Viu Chispa de raio clareando no sertão, Crente na fala do monge,
Chica Pelega bradou, monte comadre, 
Traga o afilhado que o tempo de briga é chegado.  

Que o tempo de briga é chegado na cidade santa de taquaruçu: 

Quem viu Chica Pelega,  
Viu fogo no céu e sangue no chão, Crente na fala do monge, 
Chica Pelega bradou, monte comadre, 
Traga o facão, que é pra defender nosso chão.

 Que é pra defender nosso chão na cidade santa de taquaruçu 

Quem viu Chica Pelega,
v
iu rasga mortalha piar no sertão, Crente na fala do monge, 

/Chica Pelega gemeu, monte comadre 
Que importa a morte se o amor que vier for mais forte. 

Se o amor que vier for mais forte na cidade santa de taquaruçu:
Lá vem Chica Pelega vem feito visage ao luar do sertão, 
Vem a cavalo no tempo, na voz do vento a bradar,
monte comadre São Sebastião vem vindo salvar o sertão. 

Vem vindo salvar o sertão na cidade santa de taquaruçu; 

 

(Vicente Telles)

Francisca Roberta, identificada como Chica Pelega, ajudava os feridos da guerra, fazia para eles os chás de ervas que os curavam. Esta prática ela aprendeu com o Monge João Maria, a quem seguia. Ela morava com os pais em Limeira (Joaçaba) e ficou assim conhecida por este nome porque, depois de perder o pai, o noivo e a propriedade, na Guerra do Contestado (1912-1916), continuou a combater ao lado dos caboclos, defendendo seu povo, sobrando-lhe de material apenas o pelego do cavalo que ela montava. 

Desta forma, Chica Pelega é transformada através das narrativas populares em um ícone que representa um modelo de conduta e luta de grupos subalternos. A combatente, assassinada em 08 de fevereiro de 1914, no combate do Taquarussu (Fraiburgo), é a síntese da mulher cabocla sertaneja, conhecida como um ser humano comprometido com a luta.

A Guerra do Contestado (1912-1916) aconteceu há 110 anos, sendo uma das maiores guerras de formação territorial da história da humanidade, exterminando mais de 20 mil combatentes, um genocídio dos povos indígena e caboclos (as) por empresas multinacionais com auxílio do exército, da polícia militar e jagunços dos três estados do Sul. 

Na prática, o resultado da Guerra foi determinante para a formação do sertão do Meio Oeste Catarinense. A desocupação forçada da faixa de terras com mais de trinta quilômetros de largura entre os estados do Paraná e Santa Catarina para a construção da estrada de ferro pensada para ligar o estado de São Paulo ao Rio Grande do Sul, representou o massacre de um povo. 

Acreditando que a memória não deva ser enterrada, o Fórum Regional em Defesa da Civilização e Cultura Cabocla do Contestado promove, entre 02 a 08 de fevereiro,a Jornada Cabocla Chica Pelega, reunindo pesquisadores/as que estudam este tema. Em virtude das recomendações sanitárias para o enfrentamento da pandemia do Covid-19, o evento será transmitido nas plataformas virtuais (Facebook e Youtube).

“A jornada tem como tarefa fazer com que os dois massacres do Taquarussu não caiam no esquecimento. Especialmente, trazer presente aquele 08 de fevereiro de 1914 quando Chica Pelega foi assassinada.Ninguém vai nos empurrar para baixo do tapete, nos silenciar”, apontou Jilson Carlos Souza, membro do Fórum.

Nessa primeira edição da Jornada Chica Pelega acontecerão debates, lançamento da Rede de Educadoras/es Caboclas/os, exposição de documentários, apresentações musicais e de livros sobre a Civilização e a Cultura Cabocla do Contestado.

A abertura do evento contará com a participação do professor Paulo Pinheiro Machado (UFSC) e no encerramento haverá o pré-lançamento da 2ª Mostra de Cinema Chica Pelega, que acontecerá em abril deste ano nos municípios de Caçador, Campos Novos e Curitibanos e trará filmes que retratam o conflito.

 

Confira a Programação

02/02 – quarta-feira – 19h30

Lançamento da Jornada

  • O redudo do Taquarussu do Bonsucesso na historiografia do Movimento do Contestado – Jilson Carlos Souza e Paulo Pinheiro Machado (História/UFSC), Claudia Weinman

03/02 – quinta-feira – 19h30

Lançamento da Rede de Educadores (as) Caboclos (as) do Contestado – Construir uma rede de educadores (as) Caboclos (as) do Contestado é importante? – Michelle Silveira, Eduardo do Nascimento, Nilson César Fraga, Rogério Rosa.

04/02 – sexta-feira – 19h30

Lançamento do livro de Cordel A Batalha do Rio das Antas – Arthur Luiz Peixer, Anderson Natan Gonçalves Ferreira, Leonardo Guerreiro de Andrade, Claudia Weinman

05/02 – sábado – 19h30

Pré-lançamento da Mostra Chica Pelega – Contestado em Foco – Coletivo da TV Pupilo, Jilson Souza. 

06-02 – domingo – 19h

Pedro Pinheiro canta em Prosa e Verso o Contestado – Mediação de Claudia Weinman 

07/02 – segunda-feira – 19h30

A construção do Projeto Esporte Bem Legal e o surgimento da APAFEC – Emerson Souza, João Ademir Cancelier, João Carlos Rodrigues, Maria Aparecida Ribeiro Rodrigues Fidelis,  Claudia Weinman, Julia Saggiorato, Jilson Carlos Souza.

08/02 – terça-feira – 19h30

Encerramento – O segundo massacre na cidade santa do Taquarussu do Bonsucesso e o assassinato de Chica Pelega – Karoline Fin, Claudia Weinman.