A jornadaaconteceu entre os dias 26 e 30 de abril, em 6 municípios da Região do Contestado.
Na segunda-feira (24), aconteceu a livre de lançamento transmitida pelos canais do evento, no Facebook e no Youtube, com a participação do professor Paulo Pinheiro Machado (UFSC), Jilson Carlos Souza, Lu Paes, Jorge Luiz Gonçalves, Gustavo Zardo, Juciara Machuga, além da professora Dandy dos Santos e Roberto Schnemberger.
O evento levou o espetáculo Natureza Cabocla – atuação de Lu Paes e Jorge Luiz Gonçalves, direção e produção de Gustavo Zardo — aos municípios de Tangará, Luzerna, Videira, Fraiburgo, Monte Carlo e São Bento do Sul. Nestes 5 dias, 1600 pessoas puderam conhecer um pouco mais acerca do conflito que ocorreu entre 1912 e 1916 e a herança que ele deixou.
O educador e comunicador Jilson Carlos Souza, organizador do evento, destaca que a Jornada vem se tornando um espaço importante para a valorização e ressignificação da cCivilização e da cultura cabocla do Contestado.
A Jornada Cabocla Chica Pelega foi construída para divulgar o legado deixado pela Francisca Roberta, a Chica Pelega, heroína do Taquarussu do Bonsucesso, e a Resistência Cabocla que enfrentou o Exército da arrogância (polícia militar de Santa Catarina e Paraná, mais os jagunços contratados dos Coronés e da Lamber…)”.
Após o espetáculo, em todos lugares onde passou, houve uma Roda de Prosa, onde as pessoas participaram comentando e debatendo questões com os atores e organizadores sobre o que foi apresentado, além de detalhes da cultura cabocla. Entre os temas discutidos nas Rodas de Prosa, destaque para a criação da Universidade Federal do Contestado (UNIFECON). Jilson explica:
“Há anos vêm sendo debatida por organizações sociais e populares da Região do Contestado, essa proposta foi muito bem aceita em todos os locais apresentados. A avaliação de quem acompanhou as apresentações do Natureza Cabocla é que a construção da UNIFECON, é uma das maneiras de ser paga a dívida histórica que as elites econômicas estaduais e brasileiras têm com a Região do Contestado”.
Outra novidade que deve ser destacada nesta edição: a criação da nova identidade visual, criada pelo professor/artista Gerson Witte, além da confecção de uma camiseta oficial do evento.
Exibição de estreia em Tangará
Abertura em Tangará
Na manhã de quarta-feira (26), a apresentação da peça teatral aconteceu no Clube Rio Bonitense, acompanhada por mais de 200 estudantes e professores do Ensino Médio, superando todas as expectativas dos organizadores.
Finalizada a apresentação, os artistas populares Jorge Luiz Gonçalves, Lu Paes e Gustavo Zardo foram recepcionados pelos diretores Gilson Panceri Junior e Roberto Bohnenberger, no Centro Administrativo da Cresol Meio Oeste — apoiadora do evento.
Luzerna, onde nasceu Chica Pelega
Na tarde do dia 26, o espetáculo foi apresentado no E.E.B Padre Nóbrega, em Luzerna, um local icônico. No tempo do conflito, a região que abrangia os municípios de Ibicaré, Luzerna, Joaçaba, Herval d’ Oeste, Herval Velho e Catanduvas formavam o grande distrito de Limeira. Neste local, nasceu Francisca Roberta, a Chica Pelega, heroína do Taquarussu do Bonsucesso.
Aproximadamente 200 estudantes das turmas de 9° ano, 1º e 2º ano do Ensino Médio, além dos/as professoras/es assistiram à apresentação.
“O Espetáculo Natureza Cabocla foi sem dúvida um momento de reflexão política e ativista, uma aula de história, de profissionais comprometidos com a essência da nossa Cultura. Os estudantes e professores ficaram simplesmente encantados com tamanha beleza e sutileza nos detalhes do espetáculo, com as histórias da vida real as quais eles nem conheciam. Se perceberam como sujeitos pertencentes ao território Contestado, o que trouxe significado para sua existência e entendimento do que são pela sua ancestralidade, infelizmente ainda negada e camuflada”, relata a professora Darlene.
Darling, como a professora é conhecida, lembra que a professora Janete contou, aos prantos, durante a apresentação do espetáculo, que a sua avó era benzedeira.
Em Videira, três sessões
Na quinta-feira (27) de manhã, o espetáculo Natureza Cabocla foi apresentado na E.E.B Esther Crema Marmentini, em Videira, no Vale das Perdizes. A primeira sessão foi destinada aos estudantes e professores da E.E.B Anísio Rachadel de Oliveira (Anta Gorda – Videira) e da E.E.B. Frei Evaristo (Iomerê); já a segunda contou com estudantes e professores da escola anfitriã. À tarde, mais de 350 pessoas lotaram o Auditório do IFC Videira para prestigiar o espetáculo. A comunidade acadêmica e convidados puderam partilhar conhecimentos a respeito do conflito.
Sessão em Videira/SC
Em Fraiburgo: mais três sessões
Na sexta-feira (28), a 2ª Jornada Cabocla Chica Pelega chegou a Fraiburgo. O Auditório do Instituto Federal Catarinense (IFC), foi palco para duas apresentações de Natureza Cabocla. Na primeira sessão, 175 estudantes e professores do Instituto prestigiaram o evento. A segunda apresentação foi destinada a 175 estudantes e professores da Escola Municipal Padre Biaggio Simonetti e do Centro Educacional Fraiburgo (CEFRAI).
“Espetáculo maravilhoso proposto pela Jornada Cabocla Chica Pelega, parabéns Lu Paes e Jorge Gonçalves pela interpretação, Gustavo pela direção, IFC Fraiburgo pelo espaço e Jilson pela ponte entre arte e escola. Mais incrível seria se a Prefeitura e Câmara Municipal de Fraiburgo trouxessem essa maravilha para todas as escolas e pessoas do município”, comentou a professora Karoline Fin em suas redes sociais.
A noite foi marcada por simbolismo e emoção, a terceira apresentação foi no Taquarussu do Bonsucesso, precisamente no Recanto Caboclo do Grupo Renascença Cabocla. Além dos integrantes do grupo, a sessão contou com a presença dos Quilombolas da Comunidade Campo dos Poli, e moradores/as do Assentamento Contestado e da comunidade do Taquarussu. O local é simbólico, pois foi ali que ocorreram duas grandes batalhas, na verdade massacres do povo caboclo. Entre os mortos estava Chica Pelega.
2ª Jornada Cabocla Chica Pelega encerra a programação com 1600 espectadores 102ª Jornada Cabocla Chica Pelega encerra a programação com 1600 espectadores 112ª Jornada Cabocla Chica Pelega encerra a programação com 1600 espectadores 12
Sábado em Monte Castelo
No sábado (29), no Centro de Eventos Ivo Moreira, em Monte Castelo, aconteceu a nona apresentação da peça, dentro da programação da 2a Jornada Cabocla Chica Pelega. Desta vez, a organização ficou por conta da direção, estudantes e professores da E.E.B Valentin Gonçalves Ribeiro.
Antes da apresentação, a comitiva esteve na praça ao lado da linha férrea onde repousa o monumento a São João Maria. Depois do espetáculo, o professor Erick Alves, que coordenou os trabalhos, recebeu a organização e equipe do espetáculo para um delicioso jantar ao redor do fogão à lenha.
Encerramento em São Bento do Sul
O encerramento da jornada cabocla chica pelega, é marcado pela emoção. No domingo (30), a 2a Jornada Cabocla Chica Pelega chegou à Ocupação Alto da Glória, em São Bento do Sul, onde foram recebidos com muita alegria e um delicioso almoço, compartilhando com integrantes da Comunidade e de organizações sociais locais. À tarde aconteceu a décima apresentação do espetáculo Natureza Cabocla. Ao final, a emoção tomou conta do público, dos atores e de todo o coletivo.
“A ultima apresentação no Alto da Glória, foi emocionante. Pelo contexto de luta, pela recepção que recebemos, pela garoa, pelo sol maravilhoso que apareceu, pelo profundo debate e principalmente pelos relatos e lágrimas do público presente”, comentou Jorge Luiz Gonçalves integrante da Obra Teatral Natureza Cabocla.
Para finalizar, Jilson, organizador do evento, destaca que foi um grande desafio organizar a edição 2023 da Jornada Cabocla Chica Pelega, pois a edição do ano anterior foi via internet e a deste ano foi desenvolvida em seis municípios diferentes: “Levar um Espetáculo Teatral como o Natureza Cabocla, a escolas, Institutos Federais, Espaços Comunitários e Ocupações foi gratificante e ao mesmo tempo completamente provocador, pois a obra teatral foi apresentada em diversos locais, desde auditórios com boa estrutura até em espaços ao ar livre, sem a grande versatilidade dos atores e dos produtores locais, certamente não teríamos alcançado o êxito obtido”. Jilson acrescenta que a Jornada foi construída para divulgar o legado deixado pela Francisca Roberta, a Chica Pelega heroína do Taquarussu do Bonsucesso e a Resistência Cabocla que enfrentou o Exército da arrogância (polícia militar de Santa Catarina e Paraná, mais os jagunços contratados dos Coronés e da Lamber…). “Sem dúvida alguma, a Jornada Cabocla Chica Pelega vem se tornando um espaço importante para a valorização e ressignificação da Civilização e da Cultura Cabocla do Contestado”, comenta.
“Para 2024 os desafios aumentam. Jilson conta que em breve será feita uma reunião para avaliar os pontos positivos e negativos da edição deste ano e começar a pensar a 3ª edição da Jornada Cabocla Chica Pelega a ser desenvolvida no próximo ano”, comenta Jilson Carlos Souza – educador e comunicador popular integrante da coordenação da Jornada.
Sessão em São Bento do Sul
Números da Jornada Cabocla Chica Pelega 2023
■1.600 espectadores; ■ 09 Escolas beneficiadas; ■ 19 Publicações na página do Facebook; ■ 03 Organizações sociais beneficiadas; ■ 10 Apresentações realizadas; ■ 1.174 Quilômetros rodados; ■ 06 Municípios; ■ 250 Visualização na transmissão ao vivo no YouTube; ■ 04 Entidades organizadoras; ■ 18 Parceiros institucionais ou patrocinadores;
Depois de passar por Campos Novos (11), Curitibanos (18) e Caçador (25) arrebatando 1790 estudantes de 70 turmas de 26 escolas estaduais e municipais, além do público espontâneo que pôde acompanhar as sessões abertas e gratuitas, à noite, sempre no Cine Lúmine, podemos garantir que a 2ª Mostra de Cinema Chica Pelega foi um sucesso. O Projeto é uma realização do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Lei Aldir Blanc e conta com a produção da VMS Produções e da Pupilo TV de Joaçaba.
Foram oferecidas duas sessões-escola de manhã e duas de tarde para turmas de 8o, 9o e 3o anos de escolas públicas dos municípios e Gerências Regionais de Educação (GERED) por onde a Mostra passou. Desta forma, pôde-se unir a experiência do audiovisual com as necessidades educacionais de ensino a respeito da Guerra do Contestado, conteúdo este relacionado aos filmes.
Sob a curadoria do cineasta joaçabense Rudolfo Auffinger, foram exibidos os curta-metragens Irani, do Rogério Sganzerla (1983); Olhar Contestado, de Fabianne Balvedi e Fernando Severo (2015) e Larfiagem (2017), de Gabi Bresola. O primeiro curta-metragem é um registro em Super 8, câmera na mão, de um desfile cívico em homenagem à Guerra do Contestado, onde o cineasta filma de perto os cavalos e o discurso do folclorista Vicente Telles a respeito daquele conflito que teve sua batalha inicial naquele município. Já o filme de Fabianne Balvedi resgata as fotos do fotógrafo Claro Gustavo Jansson, o profissional contratado pela madeireira Lumber, para retratar a Guerra. Ela faz animação usando software livre e desta forma muda a percepção a respeito do caboclo. E finalmente, Larfiagem é o nome do linguajar criado em Herval d´Oeste, quarenta anos depois da guerra, por meninos que trabalhavam na estação ferroviária e quem conta a história são seus criadores, agora com 60, 70 anos.
Além destes, à noite, foi exibido o longa-metragem Terra Cabocla (2015), de Márcia Paraíso e Ralf Tambke, na sessão aberta ao público. O documentário é gravado em Fraiburgo e Lebon Régis, e mostra a fé cabocla das joaninas e joaninos, os devotos a São João Maria. Eles vivem os resquícios do Contestado, lembram o massacre e as almas que se perderam na guerra; as lutas que ainda estão de pé: pela terra, pela dignidade, pela vida.
Durante os debates, ao mesmo tempo que se externava uma gratidão por se trazer à tona um assunto tão importante e latente, que é o perceber-se como caboclos e caboclas, que é entender o seu jeito popular de falar, a história para além da historiografia oficial, é pensar quem faz este resgate e como ele é proposto, um grupo de artistas, que trabalha na periferia de Caçador, falam sobre a sua luta para ganhar visibilidade. Eles relatam a facilidade de brancos descendentes de europeus fazerem este debate em detrimento de pretos, pobres e caboclos, que ainda têm para eles ocultos estes espaços. Mesmo com todas as possibilidades de recursos postos à disposição para tanto. Foi uma conversa rica em elementos e um debate para ser estendido para outros espaços de atuação.
Já houve convites de outros municípios para que uma Terceira edição da Mostra de Cinema Chica Pelega percorra outros caminhos dentro da região onde ocorreu a Guerra do Contestado. Interessados podem entrar em contato com a equipe de produção por meio deste link
Mais de 100 anos se passaram e a Guerra do Contestado (1912-1916) está sendo revisitada, debatida e questionada por seus descendentes por meio da relação cinema e educação. A 2a Mostra de Cinema Chica Pelega levou 632 estudantes de 12 escolas – oito estaduais, três municipais e uma particular – ao Cine Lúmine, em Curitibanos, nos dias 18 e 19 de abril. Durante as cinco sessões diurnas, todas acompanhadas de debate, os estudantes puderam assistir a três curtas-metragens: Olhar Contestado (2012), de Fabianne Balvedi e Fernando Severo; Irani (1983), de Rogério Sganzerla e Larfiagem (2017), de Gabi Bresola. Na sessão noturna, teve também a exibição do longa-metragem Terra Cabocla (2015), de Márcia Paraíso e Ralf Tambke. Produção da Pupilo TV e da VMS Produções. Realização: Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Lei Aldir Blanc.
Durante o bate-papo, o professor Jilson Carlos Souza, da Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (APAFEC), de Fraiburgo, comentou com os estudantes sobre a origem do nome Curitibanos – Homens que vem de Curitiba. Estes homens, segundo ele, faziam o tropeirismo de gado, ou seja, conduziam os animais do Rio Grande do Sul até o centro econômico do Brasil, que naquela época era Sorocaba, no interior de São Paulo. A palavra Curitiba tem origem tupi-guarani – Cidade das Araucárias. E assim, os homens que viajavam até Curitiba, fundaram uma cidade no meio do caminho, antes de chegar na cidade das Araucárias. Por ser este lugar de passagem, Curitibanos é o espaço também que deu origem a outros conflitos agrários desta época.
A partir desta introdução, o educador popular contou o que ele considera um dos episódios mais interessantes da Guerra do Contestado e que fica localizado há 800 metros de onde acontecia a 2a Mostra de Cinema Chica Pelega – Contestado em Foco. “Cansados de apenas se defenderem dos ataques, os caboclos e caboclas resolvem também atacar. Eles incendiaram o cartório e a Igreja. No entanto, eles não buscavam vingança, não queriam o sangue dos seus matadores, eles queriam justiça. Ninguém morreu. Os prédios estavam vazios, Apenas foram queimados e eliminados os registros, os papéis, os documentos que davam direito de posse às terras – o que dava direito a matar”, disse ele ainda acrescentando:
Para nós caboclos e caboclas, a nossa relação com a terra não é de exploração, é de pertencimento. A terra é nossa mãe, ela é o que nós chamamos de pachamama, a grande mãe. E pros brancos que aqui chegaram e passaram a ter o título de terra, e por isso eles podiam expulsar os caboclos de suas terras, a relação é de exploração da terra. Isso denota que a nossa história não começou há 60, 70, 100 anos atrás, com os imigrantes. Ela começou há pelo menos 10 mil anos, com as nações indígenas. Não foi o homem branco que nos ensinou a comer aipim, pinhão, foi o indígena. E é dessa história que nós estamos falando nesses filmes.
Por meio da parceria entre a 2 Mostra de Cinema Chica Pelega Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) campus de Curitibanos, foi possível a participação do professor Paulo Pinheiro Machado, autor de Lideranças do Contestado (2004), Guerra Santa Revisitada (2008), Rebeldes do Contestado (2016) e coordenador do grupo de pesquisa sobre o Contestado. Para ele:
A resistência contra a expropriação de ferrovias existia em todo o Brasil e em toda a América Latina. Essa concessão que dava terra em cada lado da linha de ferro não era só no Contestado. Estradas em outros lugares do Brasil impactavam sobre comunidades da mesma forma, mas não aconteceu a Guerra do Contestado em todo lugar. Aqui houve a união de vários elementos culturais subjetivos que viabilizaram esta forma de resistência e de organização da população. É isso que a gente precisa entender. A luta contra o coronelismo, contra a ferrovia que causava todo aquele impacto ambiental e social, são elementos muito além das questões regionais. São elementos nacionais. A discussão sobre o coronelismo não era uma discussão só do meio oeste de Santa Catarina, era um problema do Brasil inteiro. E ainda é.
O professor Paulo Pinheiro insiste que o contexto agrário no Contestado é de resistência à expropriação.
Eles já eram posseiros. Até os grandes fazendeiros não tinham título de propriedade. O contexto hoje é de reconquista do território perdido. A luta pela Reforma Agrária hoje se comunica com o Contestado, assim como se comunica com as missões Jesuíticas. Há vários descendentes de imigrantes nos redutos.
Foto: Luana Callai
Mas, afinal, quem é o povo caboclo?
Os estudantes ficaram curiosos ao ver os filmes, ao ouvir as histórias relatadas pelo professor Jilson Souza, a respeito da participação de Curitibanos na Guerra do Contestado, dos ajuntamentos, então chamados de Cidades Santas. Mas quem são então estes caboclos
O caboclo e a cabocla somos todos nós: o preto, o índio e o branco pobre Esse povo misturado, que resistiu e nos trouxe até aqui. Nós só estamos vendo esses filmes e dialogando sobre o Contestado porque nós somos descendentes, nós somos continuadores da história do Contestado. Hoje em outras trincheiras. Naquele momento, eles tiveram que enfrentar canhão, avião, metralhadora alemã. Hoje, a nossa tarefa é enfrentar a tentativa de esquecimento, de apagamento da história, de quem nós somos e o que somos. E ser caboclo é um grupo social formado por pelo menos três etnias: indígena, negra e branca.
Foto: Luana Callai
A guerra podia ter sido evitada
O professor Paulo Pinheiro Machado destacou uma fala do professor Rogério, dentro do filme Terra Cabocla (2012), quando ele afirma que a guerra contra o próprio povo não é uma fatalidade, é uma decisão política. Ela podia ter sido evitada e a matança não teria acontecido:
Possivelmente Taquarussu hoje fosse uma espécie de Juazeiro do Norte, vendendo fitinhas de João Maria, tendo uma romaria anual… Juazeiro do Norte teve mediações políticas que impediram o ataque. Padre Cícero era um coronel, ele estava na política oligárquica, influenciava na política nacional e regional. Aqui no Contestado eles não tinham nenhum tutor, nenhum coronel que fizesse esse tipo de mediação. E aquela concentração de pobres foi vista como uma ameaça à ordem estabelecida. Foram sistematicamente atacados e a Guerra se estabeleceu.
Ao final de cada sessão, de cada participação, de cada nova escola, de cada novo município da região do Contestado por onde a 2 Mostra Chica Pelega tem passado percebe-se que a história é latente. As reflexões sobre a guerra são também sobre a vida e a reconquista da terra. Esta edição se encerra na próxima parada, em Caçador, nos dias 25 e 26 de abril, no Cine Lúmine. Até lá.
A estreia da 2a Mostra de Cinema Chica Pelega aconteceu na última segunda-feira, dia 11 de abril em Campos Novos. Foram exibidos três curtas-metragens em quatro sessões-escola e uma sessão noturna aberta ao público, com um curta e um longa-metragem. Todas elas com entrada gratuita. O projeto é uma realização do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Lei Aldir Blanc, com a produção da VMS Produções e da Pupilo TV de Joaçaba. Nas próximas semanas, a Mostra passará ainda pelos municípios de Curitibanos (18) e Caçador (25).
De manhã,354 estudantes das redes públicas municipal – Prof. Nair da Silva Gris (CAIC); Sta Julia Billiart; Novos Campos – e estadual – Paulo Blasi e Prof. Antonia Correa Mendes, Henrique Rupp e Gasparino – de Campos Novos assistiram aos curtas-metragens Olhar Contestado(2015), de Fabianne Balvedi e Fernando Severo; Irani (1983), de Rogério Sganzerla e Larfiagem (2017) de Gabi Bresola, em duas sessões (8h30 e 10h).
À tarde, as Escola Estaduais Henrique Rupp e Gasparino, o CAIC a Santa Julia Billiart mandaram outras turmas. Além delas, ainda compareceram a Escola de Educação Básica Professora Virginia Paulina da Silva Gonçalves, de Monte Carlo. Na soma, foram 228 alunos, divididos em duas sessões – às 14h e às 15h30, para assistirem e debaterem os filmes apresentados na 2a Mostra de Cinema Chica Pelega, no Cine Lúmine.
Fechando a programação, às 19h30, a última sessão, aberta ao público, contando com a presença de 135 estudantes do Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) de Campos Novos e Monte Carlo, além de outros interessados em conhecer os filmes que retratavam os temas referentes à Guerra do Contestado e à cultura cabocla.
Entre os interessados, estava o ex-senador da República, Dirceu Carneiro, e a esposa, Terezinha, moradores da região. Eles chegaram cedo e acompanharam a exibição de Kiki, o Ritual de Resistência Kaingang (2012), de Ilka Goldsmith e Cassiano Vitorino, da Margot Filmes de Chapecó, e de Terra Cabocla (2015) de Marcia Paraiso e Ralf Tambke, da Plural Filmes.
Ao final de cada sessão – manhã, tarde e noite – houve debate sobre os temas levantados pelos filmes. Durante o dia, com a participação do professor Jilson Souza, caboclo, educador e comunicador popular, integrante do Fórum Regional em Defesa da Civilização e da Cultura Cabocla do Contestado e da Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (APAFEC). Para o debate da noite, contamos com a participação também de João Maria Chaves dos Santos, assentado no MST em Campos Novos, pesquisador oral das lutas pela terra, descendente de caboclos.
Os estudantes não se sentiram intimidados em perguntar. Queriam saber sobre a formação dos povos originários, a construção e o porque não se mantém atualmente ativa a estrada ferro, interessaram-se muito pela “larfia”, a língua criada em Herval do Oeste pelos meninos que trabalhavam na Estação Ferroviária, retratados no filme de Gabi Bresola.
Muitos deles nunca tinham ido ao cinema, segundo o relato das professoras. Não nos constrangemos com esta pergunta. Mas estava em seus olhos. Brilhavam. Suas almas pareciam sair do corpo e ir em direção à tela, em direção ao sonho.
Fotos: Luana Callai Fotógrafa
OS FILMES
TERRA CABOCLA (Marcia Paraiso e Ralf Tambke, 2015, 82m) Um povo simples, de crenças e rituais tradicionais habita a região do Planalto Catarinense. Símbolos de uma forte resistência cultural, os caboclos enfrentaram uma guerra de extermínio há 100 anos atrás, quando sofreram severos ataques de grandes fazendeiros, do Estado e das oligarquias que estavam de olho nas terras que o grupo ocupava. Apesar da Guerra do Contestado ter quase dizimado a cultura local, o povo caboclo conseguiu se reerguer e mantê-la viva até os dias atuais. Llink para download do cartaz do filme.
KIKI, O RITUAL DE RESISTÊNCIA KAINGANG (Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, 2014, 34m) Kiki é o ritual mais importante da etnia indígena. Foi realizado em 2011 na Aldeia Condá Chapecó/SC). De forma cronológica, são mostrados os preparativos na mata e na aldeia. A realização do ritual foi uma tentativa de revitalizar e fortalecer o dualismo Kaingang. O filme mostra, também, como a língua kaingang ainda hoje representa um importante signo dessa cultura, demonstrando que os indígenas mantêm sua identidade apesar da violência do contato com outras etnias. Link para download do cartaz do filme
IRANI (Rogério Sganzerla, 1983 – 8 m) O cineasta, com a câmera na mão, se mistura aos personagens da festa que marca o aniversário da Guerra do Contestado, na cidade de Irani. Uma câmera que se aproxima de frente aos cavalos, que imprime movimentos circulares, estabelece uma gramática que emerge, a partir da encenação que a população da cidade constrói. O filme é a sua maneira de olhar para o seu passado a fim de constituir uma história que lhe represente.
OLHAR CONTESTADO (Fabianne Balvedi e Fernando Severo, 2012, 15m) A animação de câmeras virtuais sobre registros fotográficos, ilustrações e desenhos rotoscopiados sobre documentários da época fornecem os elementos visuais necessários para a reconstituição minuciosa dos locais, personagens e eventos do conflito. As principais fotografias utilizadas são de Claro Jansson, fotógrafo contratado pela Madeireira Lumber, que registrou passagens fundamentais daquela que ficou conhecida como “Guerra Santa do Sul”. “O Contestado ainda é uma guerra cheia de interrogações, cheia de dúvidas, do que realmente aconteceu. Além do importante caráter histórico/documental, o filme se destaca pelo fato de ser aberto (filme e fontes disponibilizados livremente) e ter sido produzido com ferramentas livres.)
LARFIAGEM (Gbi Bresola, 2017, 18m) Engraxates, carregadores de malas e outras crianças de 7 a 15 anos de idade conviviam com viajantes da estação ferroviária de Herval d’Oeste (SC), nos anos de 1950. Para sobreviver, comprar gibis e ir ao cinema, driblar fiscais, policiais e até os próprios pais, inventaram uma língua própria. Hoje, décadas depois,a Larfiagem aparece como memória de seus últimos falantes, agora septuagenários, mas que ainda conhecem, ensinam e decifram os segredos de seus substantivos e pronomes.
Irani foi o local onde ocorreu o primeiro combate, dando início a Guerra do Contestado, onde o Exército encontrou o povo caboclo, então já unido em comunidade, amparado pelas bênçãos do monge que depois foi consagrado São João Maria, que lhes preparava chás para curar as tantas dores e enfermidades. Por coincidência, o pai de Rogério Sganzerla foi um dos fundadores, construtores: “uma pessoa a qual as pessoas jamais esquecem”. Nas palavras do próprio cineasta, em entrevista à Adgar Bittencourt, no programa Olho Vivo na TV, no extinto Canal 21, de Joaçaba, sua terra natal, em dezembro de 1999. Rogério falava com muito amor sobre este projeto que envolvia o Irani. O curta-metragem era apenas uma parte. Ele parecia não abrir mão deste resgate.
Eu me sinto lisonjeado e devo repetir que tenho a maior satisfação de ter encontrado, até na Sorbonne, em Paris, estudantes fazendo teses sobre o meu primeiro longa-metragem, O Bandido da Luz Vermelha (1968), e também em outros países. Mas na verdade, eu devo dizer que o filme que eu queria estrear, e que até hoje eu não pude fazer na sua longa-metragem, é o filme sobre o Contestado, sobre a nossa terra, sobre o Irani.
Rogério Sganzerla foi crítico de cinema (Suplemento Literário – Estadão, Folha da Manhã, Folha da Tarde) e obteve reconhecimento mundial no cinema depois como realizador. Sempre defendeu o cinema, a arte, a liberdade de criar. Mas, acima de tudo, amava o seu povo, tinha muito orgulho de ser “um cara do interior” e de guardar traços dessa herança.
Nesta mesma entrevista, dada à TV local da sua cidade natal, conta que passou muitos meses trabalhando neste projeto sobre a Guerra do Contestado, no Irani. Conversando com o Maestro Vicente Telles, a quem admirava. Não queria mostrar só canhões, mas pensava em um processo diferenciado.
Eu tinha conhecido, eu admiro muito o trabalho musical do maestro Vicente Telles. Ele se preocupa em manter os locais onde aconteceram os combates iniciais, no Irani, e este é um projeto que eu acalento desde 1961. Eu queria fazer isso na forma que fosse útil e agradável ao público. Eu queria contar uma história, é uma curva dramática, todos são heróis e ao mesmo tempo, há uma reflexão histórica e tem ligações com o Paraná.
E então Rogério afirma que este projeto ficou parado por falta de incentivo financeiro. Ele dizia que era para ser feito com investimento vindo de Santa Catarina e do Paraná. Era para ser algo que interessasse até mesmo aos poderes públicos destes lugares para esclarecer o que houve na região. As pessoas deveriam buscar estes esclarecimentos. Saber das origens, da identidade e contemplar esta história que foi feita principalmente de heróis. Não os militares, mas os que se doaram para proteger as suas famílias e buscar algo melhor para as crianças que ficaram esperando em casa as suas voltas. E em nome deles ele acalentou este projeto.
Para mais informações a respeito do filme Irani (1983), de Rogério Sganzerla, e os outros filmes que estão na 2ª Mostra de Cinema Chica Pelega, entre na Sessão Filmes.
Entre os dias 02 e 08 de fevereiro, o Fórum Regional em Defesa da Civilização e da Cultura Cabocla do Contestado proporcionou a 1ª Edição da Jornada Cabocla Chica Pelega. O encontro promoveu a reflexão acerca do Conflito do Contestado, onde hoje é a região do meio oeste catarinense – a partir da construção da estrada de ferro que liga o Rio Grande do Sul a São Paulo. O evento foi transmitido pelo Facebook e YouTube.
O objetivo da primeira edição foi rememorar os dois embates que aconteceram em Taquarussu do Bonsucesso – que antes pertencia a Curitibanos e hoje a Fraiburgo. A primeira batalha ocorreu no dia 29 de dezembro de 1913 e a segunda, mais conhecida como o Massacre do Taquarussu, deu-se no dia 08 de fevereiro de 1914, como narra o jornalista e pesquisador Paulo Ramos Derengoski (Railway do Contestado. Editora Insular, p.40 e 41):
“Na madrugada de 8 de fevereiro de 1914, Aleluia Pires deu ordem de fogo. Depois de alguns tiroteios esparsos com franco-atiradores, os legalistas conseguiram cercar as saídas do reduto de Taquarussu e assentaram metralhadoras nas elevações mais próximas. Durante quatro dias e quatro noites, milhares de granadas explosivas Schrapnell arrebentaram os casebres do acampamento caboclo: homens, mulheres e crianças são rasgados pelos estilhaços. Em meio ao fogaréu a ferro, numa gritaria medonha voam braços, pernas, panelas, armas, santinhos, potes, roupas, chapéus e lascas. A resistência sertaneja desfaleceu em meio aos destroços“.
No lançamento da Jornada, o professor Paulo Pinheiro Machado (PPGH – UFSC), uma das maiores referências nos estudos sobre a Guerra do Contestado, relatou como foi o confronto no Taquarussu, destacando os principais personagens que ali estiveram envolvidos. Ele fala a partir das pesquisas realizadas nos documentos oficiais do Exército Brasileiro, no Rio de Janeiro.
No segundo dia teve o lançamento da Rede de Educadores Caboclos e Caboclas, unindo professores que levam a cultura e a história do Contestado para a sala de aula. Participaram da conversa os professores Eduardo Nascimento, Nilson Cesar Fraga e Rogério Rosa, com a mediação do educador Jilson Carlos Souza.
Na sexta-feira (04/02), houve a apresentação do livro de cordel A batalha de Rio das Antas, escrito pelos estudantes do 8º ano da Rede Pública de Rio das Antas. Os professores Arthur Luiz Peixer (História), Anderson Ferreira (Língua Portuguesa) e Leonardo Guerreiro de Andrade (Artes) contaram como foi a concepção e a produção deste livro que trouxe, além dos textos, fotos dos estudantes recriando a ambientação da guerra.
Sábado foi o dia do pré-lançamento da 2ª Mostra Chica Pelega, que levará cinco filmes sobre o conflito do Contestado aos municípios de Caçador, Curitibanos e Campos Novos, em março e abril desse ano. Serão três sessões em cada local, sendo duas destinadas a estudantes de escolas públicas e outra aberta ao público. Sempre no Cine Lúmine, que é parceiro da VMS Produções e da Pupilo TV, promotores do evento.
O domingo foi marcado pela cantoria. O trovador de São Miguel do Oeste, professor de história e instrutor de violão popular, Pedro Pinheiro, cantou músicas que fazem referência aos cenários, histórias e personagens do Contestado.
Na segunda-feira, a conversa foi sobre o surgimento da Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (APAFEC) e a luta pela terra e preservação dos povos originários.
O evento contou com a participação da jornalista Claudia Weinman, do professor Jilson Carlos Souza e de Juliana, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que conta sobre o fechamento da Escola Itinerante Estudando e Plantando, no Assentamento São José, em Campos Novos. A escola atende também estudantes do Pinhal Preto e a fazenda vizinha ao assentamento. Após o relato, Emerson Souza fala sobre a formação da APAFEC e a forma de atuação da associação.
A última noite da 1ª Jornada Cabocla Chica Pelega aconteceu na terça-feira (08), quando a professora Karoline Fin falou sobre o Segundo Massacre na Cidade Santa do Taquarussu do Bonsucesso e o assassinato de Chica Pelega.
A 1ª Jornada Chica Pelega foi possível com apoio de diversas entidades como a Escola de Educação Básica 30 de Outubro (Lebon Régis), Instituto Federal de Santa Catarina – IFSC (Campus Caçador), Associação Hayashi-há Vital de Karatê-dô (Fraiburgo), Pastoral da Juventude Rural – PJR/SC, Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular (Fraiburgo), Grupo Renascença Cabocla (Fraiburgo), Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP/SC e Pupilo TV. O evento também contou com o apoio de pesquisadores/as, professores/as e ativistas do Contestado.
Quem foi Chica Pelega
Francisca Roberta, identificada como Chica Pelega, ajudava os feridos da guerra, fazia para eles os chás de ervas que os curavam. A prática foi ensinada pelo Monge João Maria, a quem seguia. Ela morava com os pais em Limeira (Joaçaba) e ficou conhecida por este nome porque, depois de perder o pai, o noivo e a propriedade, na Guerra do Contestado (1912-1916), continuou a combater ao lado dos caboclos, defendendo seu povo, sobrando-lhe de material apenas o pelego do cavalo que ela montava.
Assim, Chica Pelega é transformada através das narrativas populares em um ícone que representa um modelo de conduta e luta de grupos subalternos. A combatente, assassinada em 08 de fevereiro de 1914, no combate do Taquarussu (Fraiburgo), é a síntese da mulher cabocla sertaneja, conhecida como um ser humano comprometido com as causas de seu povo.
Guerra do Contestado
A Guerra do Contestado (1912-1916) aconteceu há 110 anos, sendo uma das maiores lutas de formação territorial da história da humanidade, exterminando mais de 20 mil combatentes, um genocídio dos povos indígena e caboclo por empresas multinacionais com auxílio do Exército, da Polícia Militar e jagunços dos três estados do Sul.
Na prática, o resultado do conflito foi determinante para a formação do sertão do meio oeste catarinense – Região Vale do Contestado. A desocupação forçada da faixa de terras com 30 quilômetros de largura às margens da estrada de ferro pensada para ligar o estado de São Paulo ao Rio Grande do Sul, representou o massacre de um povo.
Primeira Jornada Chica Cabocla em números
5.529 visualizações no Facebook;
4.849 comentários, compartilhamento, curtidas e comentários no Facebook;
780 minutos ou 13 horas de material em vídeo e áudio sobre o Contestado;
10 vídeos disponíveis no Youtube
779 visualizações no Youtube;
410 seguidores na página da Primeira Jornada Cabocla Chica Pelega do Facebook;
91 inscritos no Youtube;
20 convidados/as entre pesquisadoras/es, professoras/es, ativistas;
07 atividades educativas, apresentação de livros, música e cinema.
Jornada Cabocla Chica Pelega – Contestado: 110 anos de lutas e resistência
Quem viu Chica Pelega
Viu Chispa de raio clareando no sertão, Crente na fala do monge, Chica Pelega bradou, monte comadre, Traga o afilhado que o tempo de briga é chegado.
Que o tempo de briga é chegado na cidade santa de taquaruçu:
Quem viu Chica Pelega, Viu fogo no céu e sangue no chão, Crente na fala do monge, Chica Pelega bradou, monte comadre, Traga o facão, que é pra defender nosso chão.
Que é pra defender nosso chão na cidade santa de taquaruçu
Quem viu Chica Pelega, viu rasga mortalha piar no sertão, Crente na fala do monge,
/Chica Pelega gemeu, monte comadre Que importa a morte se o amor que vier for mais forte.
Se o amor que vier for mais forte na cidade santa de taquaruçu: Lá vem Chica Pelega vem feito visage ao luar do sertão, Vem a cavalo no tempo, na voz do vento a bradar, monte comadre São Sebastião vem vindo salvar o sertão.
Vem vindo salvar o sertão na cidade santa de taquaruçu;
(Vicente Telles)
Francisca Roberta, identificada como Chica Pelega, ajudava os feridos da guerra, fazia para eles os chás de ervas que os curavam. Esta prática ela aprendeu com o Monge João Maria, a quem seguia. Ela morava com os pais em Limeira (Joaçaba) e ficou assim conhecida por este nome porque, depois de perder o pai, o noivo e a propriedade, na Guerra do Contestado (1912-1916), continuou a combater ao lado dos caboclos, defendendo seu povo, sobrando-lhe de material apenas o pelego do cavalo que ela montava.
Desta forma, Chica Pelega é transformada através das narrativas populares em um ícone que representa um modelo de conduta e luta de grupos subalternos. A combatente, assassinada em 08 de fevereiro de 1914, no combate do Taquarussu (Fraiburgo), é a síntese da mulher cabocla sertaneja, conhecida como um ser humano comprometido com a luta.
A Guerra do Contestado (1912-1916) aconteceu há 110 anos, sendo uma das maiores guerras de formação territorial da história da humanidade, exterminando mais de 20 mil combatentes, um genocídio dos povos indígena e caboclos (as) por empresas multinacionais com auxílio do exército, da polícia militar e jagunços dos três estados do Sul.
Na prática, o resultado da Guerra foi determinante para a formação do sertão do Meio Oeste Catarinense. A desocupação forçada da faixa de terras com mais de trinta quilômetros de largura entre os estados do Paraná e Santa Catarina para a construção da estrada de ferro pensada para ligar o estado de São Paulo ao Rio Grande do Sul, representou o massacre de um povo.
Acreditando que a memória não deva ser enterrada, o Fórum Regional em Defesa da Civilização e Cultura Cabocla do Contestado promove, entre 02 a 08 de fevereiro,a Jornada Cabocla Chica Pelega, reunindo pesquisadores/as que estudam este tema. Em virtude das recomendações sanitárias para o enfrentamento da pandemia do Covid-19, o evento será transmitido nas plataformas virtuais (Facebook e Youtube).
“A jornada tem como tarefa fazer com que os dois massacres do Taquarussu não caiam no esquecimento. Especialmente, trazer presente aquele 08 de fevereiro de 1914 quando Chica Pelega foi assassinada.Ninguém vai nos empurrar para baixo do tapete, nos silenciar”, apontou Jilson Carlos Souza, membro do Fórum.
Nessa primeira edição da Jornada Chica Pelega acontecerão debates, lançamento da Rede de Educadoras/es Caboclas/os, exposição de documentários, apresentações musicais e de livros sobre a Civilização e a Cultura Cabocla do Contestado.
A abertura do evento contará com a participação do professor Paulo Pinheiro Machado (UFSC) e no encerramento haverá o pré-lançamento da 2ª Mostra de Cinema Chica Pelega, que acontecerá em abril deste ano nos municípios de Caçador, Campos Novos e Curitibanos e trará filmes que retratam o conflito.
O redudo do Taquarussu do Bonsucesso na historiografia do Movimento do Contestado – Jilson Carlos Souza e Paulo Pinheiro Machado (História/UFSC), Claudia Weinman
Lançamento da Rede de Educadores (as) Caboclos (as) do Contestado – Construir uma rede de educadores (as) Caboclos (as) do Contestado é importante? – Michelle Silveira, Eduardo do Nascimento, Nilson César Fraga, Rogério Rosa.
Lançamento do livro de Cordel A Batalha do Rio das Antas – Arthur Luiz Peixer, Anderson Natan Gonçalves Ferreira, Leonardo Guerreiro de Andrade, Claudia Weinman
A construção do Projeto Esporte Bem Legal e o surgimento da APAFEC – Emerson Souza, João Ademir Cancelier, João Carlos Rodrigues, Maria Aparecida Ribeiro Rodrigues Fidelis, Claudia Weinman, Julia Saggiorato, Jilson Carlos Souza.